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Eu te quero Morto

Frederico Moriarty Entre os 881 mortos de ontem havia o choro desesperado da mãe. O lamento da filha que dias antes deu seu último beijo no pai e este ouviu o derradeiro “eu te amo”.Uma miríade de rostos sem nomes, corpos sem despedida, almas moribundas. Foi um dia frio, gelado, de perdas e tragédias familiares. Toda dor é infiníta. Toda morte tem o silêncio surdo dum parafuso tampando o caixão fúnebre. O horror é de tal dimensão que não se prestam mais homenagens. Os vivos ficam estáticos e resignados frente ao sarcófago lacrado. Antes disso angustiaram-se sem notícias do enfermo tão querido e necessário. É uma morte besta, causada pelo invisível. Não há mais os passos tristes do cortejo em direção à cova. Estas, estão prontas antes mesmo do último suspiro. E são muitas, como uma imensa escadaria de valas. De sete palmos de fundura. Em meio ao tenebroso cenário, muitos gritam: levantem seus corpos desfalecidos e ponham-se a trabalhar. Inventam que o fim da vida é uma invenç...

Tempo de morrer. De unicórnios e androides. Blade Runner.

FREDERICO MORIARTY  – Jung defendia a existência de um inconsciente coletivo. A humanidade produz um arsenal de imagens, sentimentos, conhecimentos e comportamentos arquetípicos que são transmitidos (sem a interferência racional), de geração a geração. Ridley Scott é a prova do acerto da tese elaborada pelo suíço, herdeiro inicial e inimigo visceral de Freud na Sociedade Psicanalítica. Inconscientemente sua ficção científica –  Blade Runner  – é repleta de alusões inesperadas. O carro da Tyrell de seis rodas A réplica do carro da polícia de Blade Runner A empresa que fabrica os androides ( ou replicantes) é Tyrell. Os carros voadores da polícia são azuis e com detalhes semelhantes a dos carros de corrida. Entre os anos 70 e 80, existia uma empresa inglesa de Fórmula 1, com carros velozes e 2 títulos mundiais na carteira. Seu maior piloto foi Jackie Stewart. Conhecido como o ‘escocês voador’ ( como os carros de Blade Runner), Stewart pilotava um carro azul de nome ...

Fazer da Cordilheira dos Andes a Sierra Maestra da América Latina. Cuba e o Homossexualismo de Morango e Chocolate

FREDERICO MORIARTY  –  Fresa y Chocolate  é uma coprodução cubana, espanhola e mexicana de 1993. Contou com a direção de Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabio. A história se passa em Havana logo após o fim da União Soviética. David (Vladimir Cruz) é um militante comunista de carteirinha do PC cubano. Chutado pela namorada, em depressão, ele é direcionado pelo governo de Fidel Castro para morar num apartamento ocupado por Diego (interpretado por Jorge Perugorria). Capa do DVD brasileiro de “Morando e Chocolate”   (Fotos de Arquivo) Tudo complica nesse instante, pois o anfitrião é homossexual. David é o macho-alfa, um comunista que vê na orientação sexual um “desvio burguês”. Diego sonha com a liberdade e, claro, com os Estados Unidos. Aos poucos, apesar da rejeição de David, os dois criam um laço de afetividade. O bom humor, a criatividade e a energia positiva de Diego conquistam o triste e radical comunista (teórico), David. A cena em que David ouve Dieg...

África: do Imperialismo ao Filme do Menino que Descobriu o Vento

FREDERICO  MORIARTY “Doctor Livingstone, I presume?”    Henry Morton Stanley procurava pelo descobridor da África havia meses. Três anos antes, David Livingstone — explorador e missionário inglês —, partira em sua penúltima missão: adentrar o lago Niassa. Ele já havia descoberto a nascente do Nilo, o lago Victória e a nascente do rio Congo. Sua equipe de apoio (formada por muitos africanos em estado de semiescravidão) o abandonara num povoado da Tanzânia, próximo ao lago Tanganica. Em Europa era dado como morto. Stanley não desistiu e finalmente encontrou o macérrimo e maltrapilho Livingstone soltando a sarcástica frase acima. Anos depois, Stanley transforma-se no principal geógrafo-descobridor do genocida Leopoldo II, rei da Bélgica.       O lago Niassa deixou de lado o nome de batismo da Europa imperialista. Malawi é o nome africano. Lago do Sol Nascente. O país a oeste do lago tem o mesmo nome. Estava encravado na antiga Rodésia. Um dos maio...

O Futebol Total holandês: como a Laranja Mecânica revolucionou o esporte nos anos 70

FREDERICO MORIARTY  – Dirceu parecia Gulliver na terra de Brobdingnag. A personagem de Jonathan Swift deixara Lilliput onde era um gigante em meio à monarquia e agora via-se frente a homens onze vezes maiores. O ponta falso Dirceu vestia a mística camisa da Seleção Brasileira, terra do sobrenatural Pelé e que havia ganhado três das últimas quatro copas. Atordoado em toda a partida, o Brasil desceu o sarrafo na Holanda, país que voltava a disputar uma Copa depois de 36 anos. Os neerlandeses bailavam no gramado alemão como se fosse uma valsa. Mesmo com a vitória fácil, cercavam os pobres tricampeões mundiais. Dirceu, por volta dos 30 minutos do segundo tempo, encontrou-se atacado por 9 adversários. Nunca o mundo do futebol vira algo semelhante. Era o “Futebol Total” holandês na Copa da Alemanha de 1974. Dirceu cercado pelos gigantes holandeses (Foto: Jornal O Globo ) As origens do Carrossel   Holandês Marinus Jacobus Hendrics Michels anotou 127 gols com a camisa do ...