Pular para o conteúdo principal

Diário da Quarentena. Dia 10









FREDERICO MORIARTY – Saímos da fase 1, a da euforia com o isolamento. Estamos em meio à fase 2: o conflito. Cansamos, mas não temos alternativa. Logo virá a tentativa de equilibrar os opostos. Não posso sair com “Odeio ficar em casa”. Quando as mortes passarem do milhar e a maioria de nós tivermos perdido alguém próximo ou tenha alguém querido em estado grave, entraremos em depressão. Será a fase mais difícil e dolorosa.
Será o momento em que estaremos psicologicamente em frangalhos, mas que teremos de ter força para aguentar o tranco e proteger quem estiver por perto e, claro, a nossa própria sanidade. Vencida essa etapa, que espero seja curta e com o mínimo de dor possível, entraremos no estágio final: a de que a quarentena é inexorável mas tem fim.
Vamos acordar depois disso num dia frio de outono, céu cinzento, coração marcado. Daremos passos curtos, amedrontados, tímidos. Uma libertação que nos deixará marcas pelo corpo. Um aprendizado que será diferente para cada um de nós, uma dor que só nós saberemos o tamanho. Aos poucos, muito aos poucos, abriremos um sorriso pelas ruas.
Reencontraremos nosso pai, nossa mãe, nosso irmão e irmã, nossos filhos, nossos amigos e poderemos abraçá-los longamente, com lágrimas escorrendo pela alma e a sagração da divindade de ainda termos a quem amar e de estarmos ali, vivos e fortalecidos. Exatamente nessa hora, um pássaro irá cantar lá do alto, como sempre o fez, mas como nunca antes sentimos: com a beleza de seu silvo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Laranja Mecânica: o livro de Anthony Burgess, o filme de Kubrick, o futebol holandês e o Brasil Horrorshow atual

FREDERICO MORIARTY  – Johan Cruyff desce pela avenida Marinho Chagas, o então lateral esquerdo do Botafogo, e cruza para Neeskens anotar o primeiro gol neerlandês com 5 minutos de jogo. O Carrossel Holandês começava a passear sobre a poderosíssima seleção brasileira (campeã de três das últimas quatro copas do mundo e terra do maior fenômeno da história do futebol, Pelé). Rinus Mitchell, o técnico dos Países Baixos, utilizara a base do Ajax Amsterdã, então tricampeão invicto da UEFA  (hoje, Xampions  Ligui). A Holanda praticava o revolucionário “futebol total”, no qual os jogadores não tinham posição fixa, ocupavam todos os espaços vazios e atacavam em círculos. Dias antes da partida, o técnico brasileiro, Zagallo, um lambe botas da ditadura militar, que dirigiu a seleção de 70 apenas porque o ditador de então não queria o comunista João Saldanha à frente, proferiu uma de suas tantas empáfias. “Quem tem de estudar e aprender futebol conosco são os holandeses”. ...

O Futebol Total holandês: como a Laranja Mecânica revolucionou o esporte nos anos 70

FREDERICO MORIARTY  – Dirceu parecia Gulliver na terra de Brobdingnag. A personagem de Jonathan Swift deixara Lilliput onde era um gigante em meio à monarquia e agora via-se frente a homens onze vezes maiores. O ponta falso Dirceu vestia a mística camisa da Seleção Brasileira, terra do sobrenatural Pelé e que havia ganhado três das últimas quatro copas. Atordoado em toda a partida, o Brasil desceu o sarrafo na Holanda, país que voltava a disputar uma Copa depois de 36 anos. Os neerlandeses bailavam no gramado alemão como se fosse uma valsa. Mesmo com a vitória fácil, cercavam os pobres tricampeões mundiais. Dirceu, por volta dos 30 minutos do segundo tempo, encontrou-se atacado por 9 adversários. Nunca o mundo do futebol vira algo semelhante. Era o “Futebol Total” holandês na Copa da Alemanha de 1974. Dirceu cercado pelos gigantes holandeses (Foto: Jornal O Globo ) As origens do Carrossel   Holandês Marinus Jacobus Hendrics Michels anotou 127 gols com a camisa do ...

Tempo de morrer. De unicórnios e androides. Blade Runner.

FREDERICO MORIARTY  – Jung defendia a existência de um inconsciente coletivo. A humanidade produz um arsenal de imagens, sentimentos, conhecimentos e comportamentos arquetípicos que são transmitidos (sem a interferência racional), de geração a geração. Ridley Scott é a prova do acerto da tese elaborada pelo suíço, herdeiro inicial e inimigo visceral de Freud na Sociedade Psicanalítica. Inconscientemente sua ficção científica –  Blade Runner  – é repleta de alusões inesperadas. O carro da Tyrell de seis rodas A réplica do carro da polícia de Blade Runner A empresa que fabrica os androides ( ou replicantes) é Tyrell. Os carros voadores da polícia são azuis e com detalhes semelhantes a dos carros de corrida. Entre os anos 70 e 80, existia uma empresa inglesa de Fórmula 1, com carros velozes e 2 títulos mundiais na carteira. Seu maior piloto foi Jackie Stewart. Conhecido como o ‘escocês voador’ ( como os carros de Blade Runner), Stewart pilotava um carro azul de nome ...